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quarta-feira, 9 de maio de 2018

Na luz espiritual está o segredo das catedrais

Catedral de Aquisgrão, Alemanha
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Os medievais às vezes chegavam até a fantasiar, a compor, por exemplo, canções de gesta, que exprimiam o desejo deles de participar de gestas.

O medieval, quando não participava de uma proeza, julgava-se frustrado na vida.

O medieval via na religião católica uma luz diferente porque ele tinha uma noção muito mais povoada de sublimidade, de maravilhoso, de luzes intelectuais e morais de toda ordem que o homem posterior não teve.

Isso vinha de um certo modo de ver a religião católica, que se faz sentir numa catedral gótica. Mas, não numa igreja barroca, embora bela e sagrada.

Catedral de Nottingham, Inglaterra
Como é que a gente poderia encontrar uma palavra que dissesse o imponderável da catedral medieval?

Se aparecesse um Anjo que tivesse inteiramente o espírito das catedrais e dos castelos góticos, ele teria uma de cara de catedral e uma alma de catedral ou de castelo forte.

Ele simbolizaria isto para todo mundo.

Ele resplandeceria de luz e de sublimidade.

E esse é o espírito das catedrais medievais.

Elas convidam a ver a sublimidade em todas coisas, inclusive na ordem temporal.

Na hora de fazer as casas, de comerciar nas feiras, de fazer um vitralzinho para a janela do quarto, o medieval fazia tudo procurando aquela forma de sublimidade da Idade Média que as catedrais ensinavam.

Catedral de Peterborough, Inglaterra
Esse espírito que procura a sublimidade antes de tudo é uma coisa prévia à estrutura feudal medieval.

Sem ele não se compreende o feudalismo.

Quer dizer, a vassalagem vista à luz da Idade Média e não de um modo meramente funcional, a vassalagem é um dos pontos aonde mais brilha esse espírito.

Mas esse desejo de procurar em tudo a sublimidade é anterior ao problema da vassalagem.

E, ele resplandece no estilo e em todos os aspectos da catedral medieval.





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quarta-feira, 25 de abril de 2018

A Renascença recusou o gótico e trouxe um estilo de vida neo-pagão

Sankt Abersee, coroação de Nossa Senhora, Alemanha
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Que conclusão tirar de tudo isso?

Sem querer penetrar os imperscrutáveis desígnios de Deus, imaginemos que a humanidade realize aquele grande retorno, que ela afinal retorne a casa paterna, cansada de comer as bolotas do exílio.

Essa conversão operará uma mudança radical na concepção de vida que, em extensas camadas da sociedade hodierna, se baseia no laicismo e no mais desenfreado apego às coisa terrenas, as quais se converteram e fins em si mesmas.

Pressuposta essa conversão e a volta da verdadeira concepção católica da existência, que é o que realmente importa, que mudanças surgiram nos vários aspectos da vida cultural por todo o mundo?

Do ponto de vista que aqui nos preocupa, com os novos materiais e com as conquistas da ciência e da técnica moderna, que estilo arquitetônico aparecerá no horizonte da história como uma das consequências, no campo estético, dessa nova atitude perante os perecíveis bens deste mundo e os bens imorredouros e eternos?

Não nos seduz, porém, o sonho dos espíritos carnais que somente aspiram a construir neste mundo sua tenda.

O importante é que ofereçamos a Deus orações e sacrifícios para que venha a nós o seu Reino. E todo o resto nos será dado com acréscimo.

FIM

(Fonte: Catolicismo, Junho de 1960, Nº 114)

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Como teve inicio a decadência do gótico

Catedral de Wells, Inglaterra
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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A simultânea florescência da alta escolástica e do alto gótico não representa mera coincidência, mas se deve a uma verdadeira relação de causa e efeito.

O Prof. Erwin Panosfsky nos faz uma substanciosa exposição da influencia escolástica na elaboração dos princípios que favoreceram o nascimento desse estilo característico do apogeu da Idade Média.

Seria necessário um estudo à parte, fora dos limites desse trabalho, para mostrar como esses princípios diretores da alta escolástica aparecem com toda a clareza na arquitetura do alto gótico, o que o torna um estilo genuinamente próprio de uma grande civilização católica.

Enceremos estas notas com outro fato que vem confirmar mais uma vez esta verdade. Sabem os estudiosos da história da filosofia que a data convencional para a passagem da alta escolástica à fase de decadência da escolástica tardia é o ano de 1340, quando as teses de Guilherme Ockham marcaram o verdadeiro inicio dos tempos modernos.

Châlons-sur-Marne, Notre-Dame-en-Vaux, França
Assim como a idéia anti-escolástica de um fosso separando a fé e a razão apresentou reflexo no campo arquitetônico a estrutura românica, que apenas abrigava o santuário, dando a impressão que este constitui um espaço definido e impenetrável, quer estejamos fora ou dentro do edifício, assim também o falso misticismo e o fidelismo haveriam de afogar a razão na fé e o nominalismo haveria novamente de desvincular uma da outra.

Ora, ambas essas tendências, que marcam o declínio da alta escolástica, assinalam também a primeira decadência do estilo gótico. Tanto é verdade que a perda da concepção católica da vida acarreta a decadência até mesmo dos valores culturais que caracterizam uma autentica civilização.

Com o Renascimento desce a estética ao nível burguês da arte pela arte.

Agoniza a extrema sensibilidade gótica, e em lugar da grandeza dinâmica de uma estética posta ao serviço de Deus como fim ultimo de todas as atividades humanas, passa a imperar o ideal clássico e neo-pagão de beleza e de quietude, que anima os valores humanos ao procurar orgulhosamente substituir Deus pelo homem como medida absoluta de todas as coisas.


Continua no próximo post: A recusa do gótico e a Renascença trouxeram um estilo de vida neo-pagão


(Fonte: Catolicismo, Junho de 1960, Nº 114)


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quarta-feira, 28 de março de 2018

Os rostos dos homens do estilo gótico

Catedral de Notre Dame de Paris, detalhe da fachada
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Os espíritos que engendraram o gótico não se consumiam no desejo puramente estético de descobrir uma nova forma de expressão. Cumpre que constantemente tenhamos em mente a força e a vida que inspiraram esse estilo arquitetônico.

Esse imponderável elemento espiritual é que explica a arte gótica como manifestação da alma medieval. Não nos esqueçamos daquilo que mais importa: o gótico é fruto de uma época em que se reconhecia o valor de cada alma resgatada pelo Sangue do Divino Salvador.

E, até nos menores detalhes dos ornatos, esta verdade transparece. Ruskin estabeleceu a diferença que há entre os ornatos servis – gregos, ninivitas, egípcios – e os devidos ao artífice medieval.

Nem o artífice grego, por exemplo, “nem aqueles para os quais ele trabalhava podia suportar a aparência de imperfeição em qualquer coisa e, portanto, qualquer ornato... era composto de meras formas geométricas – bolas, sulcos e folhagens perfeitamente simétricas...

Catedral de Notre Dame de Paris, detalhe da fachada
“Mas no sistema medieval, ou melhor, no sistema cristão de ornato, esta escravidão desapareceu completamente, reconhecendo a Cristandade, tanto nas coisas pequenas quanto nas grandes, o valor individual de cada alma. Não apenas reconhece seu valor, porém, confessa sua imperfeição...

“Esse reconhecimento do poder perdido e da natureza decaida – que o grego ou o ninivita sentiam ser intensamente doloroso e do qual, na medida do possível, procuravam completamente se esquecer – o cristão, cada dia e cada hora, contemplando essa realidade sem temor, afinal, para a maior Glória de Deus”[1].

Recebendo esse contingente de trabalho das mãos dos verdadeiros filhos de Deus, livres do orgulho e da escravidão do demônio, com esses contributos a que não faltavam imperfeições, e reconhecendo mesmo essas imperfeições, o gótico forma um todo majestoso e cheio de harmonia.

Não se destinava este a agradar aos homens de modo carnal e terreno, mas, em um mundo impregnado de sentimento sacral, servia para favorecer a elevação da alma às alturas em que habita a Divindade.


Continua no próximo post: Como teve inicio a decadência do gótico
 
(Fonte: Catolicismo, Junho de 1960, Nº 114)


[1] John Ruskin, obra cit., Vol. II, p. 151. 


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quarta-feira, 14 de março de 2018

A Suma Teológica traduzida em linguagem artistica

Catedral de Halbertstadt
Luis Dufaur
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E a decoração também assume aspecto novo e característico, do mesmo modo que a estrutura. Assim é que a escultura puramente ornamental toma um papel cada vez maior de elemento revelador da verdade.

A estatuaria, afastando-se da excessiva estilização da arte romana e oriental, passa a ser não apenas decorativa, mas também meio de expressão espiritual e até de formação catequética. São temas que se apresentam à meditação dos observadores, são lições que não faltam muitas vezes um tom ingênuo e mesmo grotesco.

Por exemplo: a inconstância é figurada por um monge que abandona seu habito à porta do convento. Os ornatos são tirados de motivos simples da vida quotidiana, da fauna e da flora que cercava o homem medieval.

Os vitrais, recém descobertos, passam a guarnecer os vãos abertos nas muralhas e paredes, vazados por janelas ogivais ao longo das naves, ou, nas fachadas, por rosáceas que iluminam o interior co luz difusa e colorida, por preferência às pinturas murais ou afrescos, para os quais não há lugar.

Catedral de Nuremberg, naveta
Mas há a pintura dos retabulos, as obras de madeira, de marfim, de metal e até mesmo de cerâmica, tudo em uma enorme variedade e riqueza de detalhes, formando, não obstante, um todo homogêneo, uma verdadeira suma teológica traduzida em linguagem artística e na qual os elementos racionais, a estrutura lógica e coerente do conjunto se harmonizam inteiramente com as varias partes componentes.

O gótico se preocupa não só do admiravelmente grande, mas também dos ínfimos detalhes.

“Um coroamento de pináculo é uma catedral em miniatura, e quem quer que mergulhe no caos artístico de um fragmento experimentará em escala reduzida a mesma embriaguez de formalismo lógico que no conjunto do edifício. A unidade da vontade de forma e sua integral realidade resplandecem aqui com inegável clareza”

Erwin Panofsky, em fascinante estudo, nos dá os traços essenciais dessa escolástica de pedra.

“Como a Summa da alta escolástica, diz ele, a catedral do alto gótico procurava antes de tudo a totalidade, e portanto tendia a aproximar-se, por síntese bem como por eliminação, a uma solução perfeita e definitiva; por isso podemos falar do plano do alto gótico ou do sistema do alto gótico com muito mais segurança do que seria possível em qualquer outro período.

“Com suas imagens, a catedral do alto gótico tratou de incorporar a totalidade do conhecimento cristão, tanto teológico quanto moral, natural e histórico, pondo cada coisa em seu lugar e suprimindo aquilo para o que não houvesse lugar”.



(Fonte: Catolicismo, Junho de 1960, Nº 114)


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